Implicações de Mt 23, 1-39
Francisco José Lins Peixoto
Implicações –
Quando uma sociedade está habituada com um determinado sistema de poder, uma
mudança significativa desse sistema pode causar inúmeros desconfortos e
traumas, mas que são próprios da fase de transição. A forma como seja
administrada a transição deve levar em conta esses fatores, pois se o desconforto
ultrapassar um certo limite, a mudança poderá não ser efetivada. O sucesso da
mudança é influenciado pelos benefícios que ela trará e da capacidade dos
mentores do processo fazerem a divulgação entre os interessados. Por isso
costuma-se dizer: tal coisa é muito ruim, mas será muito pior sem ela, ou, tal
coisa é péssima, mas o que colocaremos no lugar dela.
Assim, devemos debater bastante sobre MT 23 e
sobre o que seria colocado no lugar das práticas religiosas atuais.
Prólogo – Trata-se
de um texto que discute as implicações decorrentes da aplicação do que Cristo
recomenda no Cap. 23 de Mateus. O estudo das implicações nos leva a compreender
melhor o alcance desse Capítulo como transformador dos hábitos religiosos
atuais, a ponto de nos transportar para o encontro de Cristo com Nicodemos,
descrito no Evangelho de S. João, Cap. 3, versículo 3, “...é necessário nascer
de novo”, tornando-se uma inevitável necessidade para a prática de Mt 23.
Prefácio – O autor
iniciou sua caminhada pela religião levado por seus pais e pela tradição.
Assim, foi batizado com menos de três meses de vida e crismado com sete anos de
idade. O primeiro ato de discordância foi a aquisição de uma bíblia e tomar
conhecimento de todo o seu conteúdo. Isso ocorreu quando o autor já estava com
26 anos de idade. Aos trinta e cinco anos, a sua esposa o levou a participar da
equipe de preparação de pais e padrinhos para o batismo na Paróquia de N. S.
das Dores do Rio de Janeiro. Esta foi uma fase importante de sua vida
religiosa, pois liderou por cerca de nove anos os encontros de pais e
padrinhos, três vezes por mês, culminando com a elaboração do texto CURSO PARA
ANIMADORES DOS ENCONTROS DE PAIS E PADRINHOS [1]. Apesar do autor ter tentado
discutir o seu texto com vários sacerdotes, o resultado foi a demissão sumária,
do autor e de sua esposa, da equipe. Encerrada a participação do autor nessa
paróquia, o autor continuou sua tentativa de entender os objetivos do clero
católico, atuando na Paróquia N. S. da Piedade, no bairro da Piedade, Rio de
Janeiro. O pároco local nos pediu ajuda para reorganizar a biblioteca iniciada
por um pároco anterior. Após um ano de trabalho, a biblioteca estava
completamente restaurada, com a proposta de leitura de um livro por mês, com debate
e participação de toda a comunidade. Ficamos estarrecidos ao chegar um dia e
ver que a biblioteca não mais existia [2]. Encerrada a participação nessa
paróquia, passamos a atuar nas paróquias de N. S. Medianeira de Oswaldo Cruz e
de S. João Evangelista de Oswaldo Cruz, ambas na cidade do Rio de janeiro,
participando de grupos de canto.
Residindo nesse bairro, experimentamos uma
terrível interrupção no fornecimento de água potável, principalmente nas ruas
situadas em cotas mais altas, como foi o caso da que habitávamos.
O
autor se empenhou em organizar o povo para a luta pela volta da água,
resultando no reabastecimento dessas ruas pela empresa estatal [3]. Observou-se
que as paróquias não participaram para apoiar essa luta.
[1] – Curso para
animadores dos encontros de pais e padrinhos – Postagem de 13/08/17, no
www.coisasdopeixoto.blogspot.com
[2] – Biblioteca S.
Vicente de Paulo – Postagem de 06/07/15 no
www.coisasdopeixoto.blogspot.com
[3] – Água de Oswaldo Cruz
– Postagem de 03/03/15 no www.coisasdopeixoto.blogspot.com
Estivemos na cidade de Mendes/RJ, onde tivemos
oportunidade de participar do movimento Comitê pela Ética na Política, liderado
pelo ex-vereador por São Paulo, Francisco Whitaker, que era Secretário Geral da
CNBB, na época. Os comitês visavam a fiscalização das Câmaras de vereadores
pela população. Esse movimento conseguiu a aprovação da lei contra a corrupção
no Congresso, infelizmente sem uma contribuição decisiva da igreja católica
formal. Grande parte dos militantes eram correligionários do Partido dos
Trabalhadores, que motivados pela campanha do Lula para presidente, deixaram o
movimento e este se extinguiu.
Em
Maceió/AL, o autor e sua esposa participaram intensamente dos eventos da Missa
da Paz [4] e do grupo de canto Peregrinos de Jesus [5]. A Missa da Paz ocorria
na catedral de Maceió, com uma reunião no salão, após a missa. A cidade foi
praticamente varrida, já que a missa era mensal, e cada vez com a participação
de um dos diferentes bairros. Aconteceu que surgiram denúncias graves nessas
reuniões, que não foram satisfatoriamente abordadas pelas autoridades ou pelo
arcebispo. Aos poucos, foi a Missa da Paz se extinguindo sem a promessa de que
o seu conteúdo serviria para a edição de um livro ser cumprida.
O
grupo de canto Peregrinos de Jesus teve o mesmo destino. O autor e sua esposa
continuaram participando da equipe de liturgia da Paróquia Imaculada Conceição
do Jacintinho, sede do grupo Peregrinos de Jesus.
Foi
aí que surgiu um incidente durante uma missa em que o autor teve a função de
comentarista. O Pároco local o suspendeu das funções sem explicar os motivos
exatamente, mas tudo tinha a ver com um comentário improvisado pelo autor nessa
missa. Mais tarde, fomos dispensados de tocar e cantar na missa dominical. Paralelamente, tomei conhecimento de um livro
publicado pelo pároco da igreja de Santa Terezinha, Farol, Maceió/AL. Ao
examinar o livro vi que continha citações de um teólogo alemão do século XX, e
grande influenciador dos textos do Concílio Vaticano II. Antes de falecer, em
1983, ele deixou um escrito que dizia: ”A igreja católica do futuro será
desclericalizada, crítica da sociedade etc “ [6]. Isso me animou sobremaneira,
de modo que aproveitamos a COVID 19 para não mais frequentar os cultos na
paróquia. Decidi também não mais tocar ou cantar em outras comunidades,
culminando com a publicação do texto sobre MT 23 [7], além de pintar essa
inscrição no muro da nossa residência.
[4] – Avaliação das Missas da Paz – Postagem
de 10/10/08 no www.repolitica.blogspot.com
[5] – História dos
Peregrinos de Jesus – Postagem de 13/01/10 no www.peregrinosdejesusdemaceio.blogspot.com
[6] – Argumentos de uma
tese – Postagem de 30/05/19 no www.coisasdopeixoto.blogspot.com
[7] – Evangelho de São
Mateus, Cap. 23,1-39 – Postagem de 02/01/20 no www.teologiaanalogica.blogspot.com
Qual
não foi a minha surpresa, quando vi o Manual e o Texto Base da CF 2024 com a
inscrição MT 23,8 na capa. Pedi a um paroquiano o Texto Base emprestado e
publiquei os meus comentários sobre o texto da CNBB [8]. O pároco local recebeu
uma cópia, mas ainda não se manifestou.
Maceió, 01/04/24
[8] – Comentários sobre a CF 2024 –
Postagem de 05/03/24 no www.teologiaanalogica.blogspot.com
Dentro
desses parâmetros, deveria haver um debate em torno de possíveis implicações,
porém as pessoas não costumam tomar essa iniciativa. Por isso vamos provocar
esse debate a partir de conversas ocasionais que tivemos após a publicação dos
textos e que vamos relatar sob a forma de subitens das implicações.
1)
A principal implicação é que qualquer que seja o seguidor de uma religião, ele
está sujeito ao controle dos dirigentes dessa religião, e não são totalmente
livres para tirar proveito das leituras bíblicas. Por exemplo, a leitura do
Cap. 23 de Mateus leva o leitor a entender que, no máximo, o fariseu (dirigente
atual), pode ser ouvido porque ele fala do que está escrito no livro sagrado,
mas não pode ser seguido porque é um hipócrita.
Eu
tenho aproveitado, por exemplo, as oportunidades que ocorrem enquanto eu estou
catando lixo ou capinando as sarjetas putrefeitas da rua onde moro, geralmente
aos domingos, que eu costumo dizer que “o domingo é o dia do Senhor”.
Num
desses domingos, encontrei um obreiro da igreja Assembléia de Deus que ia
cumprir sua missão no templo, distante cerca de 60m dali. Ele estava
impecavelmente vestido, de gravata, camisa social, e carregava a bíblia
consigo. Começamos a conversar e momentaneamente percebi que ele tinha logo
atrás de si a bela inscrição de MT23, encrustada no muro do meu terreno, bem à
altura de seus olhos. Aproveitei para perguntar a ele o que era um prosélito.
Como ele não respondeu, pedi para que ele lesse os versículos do Cap. 23 de
Mateus, a partir do versículo 12. Quando ele leu o versículo 15, viu que Cristo
define bem o que é prosélito, e que este vai duas vezes mais para o inferno que
o fariseu que o escolheu. Assim fiz ver a ele que as palavras hipócrita e
prosélito são muito bem definidas no Cap. 23 de Mateus, embora aparentemente
pouco conhecidas dos fariseus e prosélitos da atualidade, assim por mim
chamados por força da analogia.
Outro
termo referendado por Cristo é o “eunuco”, ou seja, castrado, conforme aparece
no Cap. 19, 12 do evangelho de S. Mateus. Quando lhe perguntei o que era um
eunuco, ele sabia que era alguém que se castrou para poder servir no harém dos
poderosos, mas de maneira vaga, e não com base na explicação de Cristo aos que
questionavam a lei do divórcio, mantida pelos fariseus.
Em seguida passou um Testemunha de Jeová
acompanhado de um jovem, que certamente estavam fazendo o que eles chamam de
“trabalho de campo”. De fato, ele tentou me entregar um folheto, mas respondi
que já conhecia essa denominação religiosa, pois convivi bastante tempo com um
seguidor das Testemunhas de Jeová. Começamos a vagar pelos versículos de
Mateus, 23 e eu conclui que a única saída era criar um grupo que fosse
independente. Ele logo se mostrou preocupado e disse que isso seria dissidência,
ou seja, um grande pecado. Então eu ia recorrer à dissidência criada por
Cristo, que o levou à morte prematura, assassinado pelos seus algozes. Comecei
me referindo à época provável em que a “ficha caiu” para Cristo, ou seja quando
Ele foi expulso da sinagoga na região da Galileia, onde tinha sido criado,
conforme relata o Cap. 4, versículo 14 e seguintes do evangelho de São Lucas.
Foi quando esse senhor declarou que não sabia dessa passagem da Bíblia. No
momento, eu não tinha, de cor, o local dessa passagem, e fiquei de enviar, por
telefone, o endereço dessa passagem bíblica.
Ora, a
partir desse ponto Cristo foi perseguido pelos doutores da lei (por analogia,
os dirigentes das religiões atuais) até que conseguiram matá-lo. Isso significa
que os cristãos tiveram que começar do zero, sem apoio dos dirigentes da
religião da época, que foi a religião em que Cristo foi educado.
Maceió, 12/08/24